Abismos

Venho cansada, arrasto corpo e alma

Trago comigo o que sobrou de uma batalha sem começo ou sem fim

Não sei quando entreguei minha Vida em mãos que não fizeram mais que dela abusar

A permissão que dei foi sem sentido, sem pensar, sem…

– Por que o fiz? Quem o sabe, se eu mesma não sei

Não culpo ninguém, nem a mim, isso agora é certo

Porém, estando na beira desse abismo com tanto para trás,

Já não sei se a coragem que me trouxe até aqui é suficiente para me fazer saltar

É muito pesado o que trago, é muito duro, muito sujo, muito escuro, é muito

E por ser muito, tenho aqui que deixar tudo isso, pois esse peso não me permitirá voar

Começo então a arrancar pena por pena, as que sinto, as que sentem por mim, as que estão machucadas, as que não fazem mais sentido

E assim, pacienciosamente, doída, mas resoluta, sigo já quase sem corpo ou asas

Chego ao final desse despir-me de mágoas e erros

Salto

Não é um voo, é queda livre, que oro para ser em tempo menor que o crescer de minhas asas,

Novas asas

E relaxo, e respiro, e confio

Me entrego a esse novo que não sei o que é, mas que me pertence, é destino

Elas então despontam, fortes, firmes, lindas e conscientes

Vêm grandes, bonitas, e se espraiam pelo céu, ao vento

Subo até as nuvens mais brancas, puras, encantadas

Volteio

Sinto a velocidade, a flexibilidade de minhas novas capacidades, sentimentos, emoções e escolhas

São minhas asas

São o que Eu Sou

São o que escolhi ser

Bela, grande, plena, com minha Luz e Sombra, acolhidas em um Único Ser

O Ser que escolhi ser, e que me permite finalmente voar.

mulher abismos

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Lua Cheia

Tinha um tempo que não se viam. Hora ela estava trabalhando, hora ele é que estava, e tinha os filhos… O fato é que não se encontravam há um tempo. Se falavam, até se viam, mas não ficavam juntos, o que significava que sexo…

– Tô com saudades d’ocê…! Ela confessou.

– Eu d’ocê também.

Mas a conversa não evoluiu para nada mais concreto. Ambos sabiam que pelas próximas semanas seria impossível se verem.

Ela havia pego um projeto grande, estava feliz com isso.

Ele feliz com as conquistas dela, como ele mesmo gostava de pontuar. Porém, justamente por isso – pelo sucesso de ambos no trabalho – é que ficava difícil se encontrarem.

Nesse dia porém foi diferente. Parece que ela sentia que justamente por saber que não o veria, sentia uma falta dele que era física, o corpo parecia reclamar sua presença. Já tinham ficado um tempo até maior sem se ver mas, ela nunca havia se percebido assim tão ávida dele.

Tentava se concentrar no trabalho, e por mais que tentasse, uma coisa ou outra sempre fazia com que ela pensasse nele. Lembrava do seu cheiro, seu gosto, seu sorriso de garoto, tudo enfim.

Foi então que a necessidade de uma agenda para a semana seguinte fez com que ela olhasse no calendário, e aí entendeu.

Lua cheia. Primeiro dia da Lua cheia.

– Aah…! Tá explicado. Agora entendi porque eu tô subindo pelas paredes desse jeito! E deu-se conta que havia falado isso em voz alta, riu a valer. Não que alguém pudesse ouvi-la, seu escritório era em casa, ela e as gatas, ninguém mais para questionar, e as gatas – até pela olhada que lhe deram quando riu alto – pareciam concordar que realmente fazia sentido aquela fala.

A ideia de que a Lua, a quilômetros de distância, pudesse influenciar seu comportamento, seus hormônios, seu sentir, poderia ser algo estúpido para qualquer pessoa, menos para ela. Já havia aprendido – e a duras penas – o quanto essas lunações podiam fazê-la feliz ou infeliz dependendo de como lidasse com isso.

Respirou fundo, e agora mais apaziguada com a situação enfiou a cabeça no trabalho.

Rendeu um tanto, mas aquela sensação física da falta dele persistia nela, como um fogo mesmo.

Desistiu de combater o que sentia. Seu raciocínio foi que se conversassem um pouco, ela sentiria o carinho dele, e isso seria suficiente, a sensação passaria.

Chamou por ele, que para variar não respondeu na hora, o habitual, demorava para responder, raras vezes pegava o celular na hora e respondia.

Até por conta disso ela não estranhou, ao contrário.

No entanto, o fato dele não lhe responder na hora, fez com que pudesse pensar melhor, e lhe pareceu que na realidade não sabia o que iria lhe falar, porque por certo não iria lhe dizer “- Oi, sabe o que é? É que a Lua cheia começou hoje, e estou morrendo de vontade de você! Dá para você dar uma passadinha aqui para resolvermos isso?”

Não, definitivamente não tinham intimidade para isso. Tinham, mas não a esse ponto! “Aliás, quem é que tem intimidade com alguém o suficiente para dizer uma parada dessas?” riu de si mesma, e aí lembrou da mensagem.

Correu no celular. Ele ainda não havia visualizado – menos mal – apagou rapidamente, e ficou se sentindo mais estúpida do que antes.

Nem cinco minutos haviam se passado, e ele chamou.

– Oi! Você chamou?

“Ai…! O que é que eu vou inventar agora?”, pensou.

– É…, não, na verdade eu ía perguntar uma coisa, mas aí já resolvi aqui, nem precisou.

– Ah, tudo bem aí? Como é que tá o trabalho?

“- Está assim, não rende o quanto deveria, porque não paro de pensar em você!”. Porém, ao invés disso, se pegou dizendo.

– É, tá indo, bastante coisa, mas eu pedi não é? E a gente pede o Universo provê, então não tenho do que reclamar!

 

– Nem sempre. Eu, por exemplo, tô querendo te ver e o Universo não tá me ajudando muito não…

“Ah, Senhor, afasta de mim esse cálice!!”

– More, você só tá falando isso porque sabe que eu não posso, não é?

Ele riu. Gostava de provocá-la.

– Claro que pode! O que te impede? Nada!

– Nada não, tudo! Eu com esse prazo para lá de curto! Você acha que eu não queria que você viesse aqui para gente ficar junto? Aliás, quem faz charme de nós dois não sou eu, é você!

Ele riu novamente, e só de imaginar o sorriso dele, ela sentiu uma descarga de hormônios pelo corpo todo, parecia uma ducha. Respirou fundo.

– Se você falar para eu ir, eu vou agora, em meia hora tô aí. E o que vai atrapalhar para você? Nada, eu fico um pouquinho, a gente mata saudades, depois você continua…

“Deus, Pai, socorro!!”

– Você é sempre assim, não é? Adora saber que eu vou falar que não posso, quando na verdade não viria aqui hoje, nem se a gasolina baixasse de preço! Quem não te conhece que te compre!

– Sério, em meia hora eu tô aí. Eu entro e saio, rapidinho, você nem vai notar!

– Se for para você entrar e sair, rapidinho, e eu não notar, não tem porque vir, não é?

Riram os dois. Ele não havia percebido como tinha soado o que disse, e ela era muito rápida para essas coisas.

– Aah…! Tá bom, já rimos, já falamos, deixa eu ir trabalhar, que tem continhas para pagar. Fica bem, beijos!

– Tô falando sério, em meia hora tô aí!

– Claro que sim! Inclusive avisa quando chegar, porque o interfone quebrou de novo, tá? Deixa eu ir, mas foi bom ouvir isso, mesmo sabendo que não é verdade!

– Marca quarenta minutos, que tô batendo na tua porta.

– A-hã, beijos!

Suspirou fundo, e voltou ao trabalho. Dessa vez com um pouco mais de concentração. A possibilidade de tê-lo por perto lhe acalmava e excitava ao mesmo tempo.

– Agora respira, e ‘bora trabalhar que esse negócio não vai se fazer sozinho!

Tinha se passado quase uma hora, e surpreendemente aquela pausa havia resultado em um avanço. O fato de ficar lutando com a falta de concentração lhe atrasava o rendimento, mas depois de falar com ele estava mais focada.

Foi então que o celular tocou. Era ele.

– Oi, tô aqui.

– Aqui onde!? Ela respondeu, com o coração quase saindo pela boca.

– Aqui na sua porta, ué? Eu não falei que vinha!

Ela demorou uns cinco segundos para se recompor, e por fim respondeu.

– Peraí que eu tô descendo.

E com o sorriso mais feliz do mundo pegou a chave, e desceu pelas escadas para abrir a porta.

A Lua já estava despontando no céu. Linda, plena, cheia.

Para Artaud e Américo

caminho PBVou andando pelo caminho,

Que já conheço, já sei

Um caminho no qual tropeço,

no qual erro, no qual só faço andar

Caminho de medo, fracassos, estilhaços.

Sigo nele sombria, pobre, soberba

Quantas vezes por ele subi,

Quantas vezes nele sucumbi

Um caminho que já conheço,

Que dele me canso…

Exaustivas minhas quedas,

Minhas insistentes derrotas

Minha falta de zelo, minha empáfia,

Meu despreparo e desespero.

Sigo só,

Não há como ir acompanhada

Não se compartilha essa jornada

De subir, descer, cair, sofrer

Não ver luz, nem treva

Não estar serena,

Não ter pulso, voz

Quem dera fosse virgem a estrada

Quem dera minha primeira morada

Mas, não

Já vai gasto meu pisar no chão

Me carcome o peito a sensação

De delírio, trôpego desvario

Quem dera um alento,

Uma fé que fosse

Quem dera a renúncia

Na qual não acredito

Fizesse desse corpo

Um abandonado grito.

Remota possibilidade de ascensão

Imensa a provável perdição

Pouca importa,

Já não me dói mais

Já não importa mais

Porque mais já não sou,

Então me rendo,

Me entrego,

E fim.

Anjos

Eu estava atravessando a Brigadeiro, bem na esquina com a Ribeirão Preto, quando ele apareceu.
Tinha no máximo um metro e cinquenta, um homem-gabiru. Negro, com uma barba já grisalha e desgrenhada. Os cabelos despenteados e sem corte. Os traços eram finos, assim como as rugas do rosto.
A camisa branca, suja e amarrotada, com algo que era entre um colete e um paletó verde malva, por cima. A calça azul escuro, social, amarrada com um cordão branco. Não reparei se usava sapatos.
Estava indo ao mercado, na verdade só passar no caixa eletrônico, sem grana, pensando em quantas vezes já havia feito isso nesta semana. A gente não percebe o quanto gasta, quando fica fazendo saques picados para isso e para aquilo. Além disso, tinha a sensação de que não era chamada para trabalho nenhum há algum tempo, e isso começa a dar um certo frio no estômago, que sobe até a garganta e acaba em um nó.
Sei que todo mundo passa por isso, e que não está fácil para ninguém, porém a gente vai entrando num turbilhão de insegurança quando o mês fecha e as entradas não chegam. Preocupações terrenas que abalam qualquer fé!
Talvez por isso mesmo ele apareceu.
Eu lá, atravessando na faixa, já entre o meio da rua e a calçada, e ele vem em minha direção. Para na guia, olha direto para mim, e num gesto de maestro em gran finale, ergue os braços acima da cabeça, abertos, as mãos espalmadas e manda uma onda de energia imensa em minha direção.
Era como se asas invisíveis ligassem os braços dele às costas. Grandes, brancas, luminosas. Tudo isso que não estava lá e que só eu via. Sua aura clara, brilhante, esplendorosa.
Isso tudo durou de um milionésimo de segundo à eternidade.
Tudo eu pude sentir nesse tempo. A minha pequenez, minha mesquinharia, minha falta de gratidão para com a Vida, minha miserável tentativa de controlar o fluxo do Universo, meus lamentos no travesseiro, minha falta de visão do Todo, do Todo que eu não sei ser, enfim.
Tudo isso eu pude sentir, eu pude ver, e principalmente ouvir, naquele silêncio sepulcral que fazia meus ouvidos quase explodirem de tanto não ouvir.
– Como a gente pode ser tão sem noção assim? Tão preocupados com nossas coisinhas – aliás ouvi isso semana passada, que eu estava preocupada com minhas coisinhas -, enquanto uma Vida inteira se desenrolava ao redor.
O máximo que o ser humano consegue alcançar, quando ferra tudo geral, é enxergar o próprio umbigo, e olhe lá!
Mas como a Humanidade tem jeito, e eu faço parte dela, há Seres melhores que nós, que trabalham para esse final dar certo. E aí nos proporcionam esses estados de suspensão, nos quais é possível vislumbrar tanto a tragédia quanto a comédia de nossa existência, e com base nessa visão mais integral, podemos respirar um pouco mais e seguir adiante.
Vai ver que por isso mesmo o que se seguiu foi tão automático quanto autêntico.
Eu – sem pensar em nada – ergo também meus braços, acima da cabeça, mãos espalmadas, e agradeço à bênção que ele me envia, retribuindo da mesma forma.
Ele aperta os lábios em sinal de concordância, e meneia a cabeça como quem terminasse um turno de trabalho bem feito.
Cruzo a rua, sigo para o mercado, não olho para trás. Para que? Ele não estaria mais ali mesmo. Quem além de mim viu aquele ser? Ninguém, tenho certeza. Era um morador de rua? Sabe-se lá. Era um catador de papelão? Vai saber…!
Mas com certeza era um Anjo, e Anjos, a gente não olha para trás para conferir.
‘Bora tirar dinheiro.

Anjo dark

Possibilidades

Pode ser que quando você resolva voltar,

A minha mágoa já não permita

Pode ser que quando eu perdoar

Você já não queira me amar

Pode ser que a gente seja tão hipócrita,

Que quando for para se abrir

A gente se tranque

Pode ser que ao invés de sorrir

Um para o outro,

A gente finja que não se viu

Pode ser que quando meu ego arrefecer

Teu perdão não me encontre mais

Pode ser que nosso orgulho sufoque

Tudo que foi tão bom…

E que nunca mais haja tudo,

E nem o que foi tão bom.

Pode ser que eu fique na chuva

Que você não seja mais meu sol

Pode ser.

Porém, pode ser também

Que nada disso ocorra

E que ao invés disso,

A gente aprenda a se amar

E ser feliz

Pode ser.

E eu prefiro que

Seja assim.

– Pode ser?

chuva sol mulher

Poema Bruxo

De todas as fogueiras nas quais eu já queimei

Eu honro a Luz,

De todas as masmorras nas quais já apodreci

Eu honro a Luz,

De todos os sabres que já me deceparam a cabeça

Eu honro a Luz,

De todas as almas que eu já praguejei e amaldiçoei

Eu honro a Luz,

De todos os sortilégios e feitiços que preparei e lancei

Eu honro a Luz,

De todas as religiões e seitas que abjurei

Eu honro a Luz,

De todos aqueles que eu enriqueci e fali

Eu honro a Luz,

De todos aqueles que eu enlouqueci e feri

Eu honro a Luz,

De todas as chagas que eu criei e espargi

Eu honro a Luz,

De tudo que fui, pensei e senti

Eu honro a Luz,

De tudo quanto absorvi, ganhei e consegui

Eu honro a Luz,

De tudo que me foi farto, abundante e eu perdi

Eu honro a Luz,

mulher treva luz

De tudo que me foi escolha, arbítrio e eu sucumbi

De tudo isso, honro minha Sombra

Porque foi por enxergá-la que hoje eu pus

Sobre o manto do breu em que vivi

O reconhecimento da escuridão de onde sai

Porque de toda minha jornada desventurada

Eu primeiro honro a minha queda

Porque foi preciso antes ser treva

Para depois reconhecer

Que esse Ser que se eleva

É um Ser de Luz

O Quanto Baste

Eu não quero que me ames demais

Porque isso não seria Amor e sim apego

Eu não quero que me cuides demais

Porque isso não seria Cuidado, mas controle

Eu não quero que me queiras demais

Porque isso não seria Desejo, e sim posse

Eu não te necessito todos os dias

Porque isso não seria Querer

Seria amar-me de menos

Eu quero que me Ames tanto sempre

Quanto às vezes

Eu quero que me Cuides a cada minuto,

E que entre um e outro me esqueças

Eu quero que me Desejes tanto,

Que eu não te falte nas ausências

O que eu quero é o quanto baste

Tanto de ti quanto de mim.

balança